Mais do que uma instituição religiosa, a Igreja Metodista Unida em Angola (IMUA) foi — e continua a ser — uma força moral e social que ajudou a erguer o país das ruínas do colonialismo à esperança da independência. A sua história é também a história de Angola: marcada pela fé, educação e pela coragem de servir quando o Estado ainda era apenas uma promessa.
- Os templos metodistas tornaram-se espaços de reflexão e formação cívica, onde se ensinava não só o Evangelho, mas também a dignidade e o sentido de pertença.
- Hoje vemos o fruto da perseverança e da fé.
- Em muitas regiões, a Igreja foi o primeiro rosto do Estado - um farol de esperança onde a presença governamental ainda não havia chegado.
- As nossas igrejas foram destruídas, pastores mortos e presos mas hoje vemos o fruto da perseverança e da fé.
Das Missões à Emancipação Espiritual
Quando o bispo William Taylor aportou em Luanda em 1885, não trazia apenas a Bíblia — trazia também o ideal de que educar é libertar. Sob sua inspiração, a IMUA lançou as bases de uma rede de escolas e comunidades que fariam da educação um acto de resistência e transformação. Durante quase um século, os missionários estrangeiros guiaram o movimento até que, em 1972, a eleição do bispo Emílio Júlio Miguel de Carvalho, primeiro angolano a ocupar o episcopado, simbolizou uma virada histórica. A Igreja deixava de ser estrangeira para tornar-se plenamente nacional — antecipando o espírito de emancipação que culminaria na independência de 1975.
Os templos metodistas tornaram-se em espaços de reflexão e formação cívica, onde se ensinava não só o Evangelho, mas também a dignidade e o sentido de pertença. A fé, naquele contexto, era também um ato político e educativo.
Fé que Reconstrói
Com a independência, vieram as feridas da guerra e os desafios da reconstrução. Enquanto o país se dividia, a IMUA permanecia nas comunidades, ensinando, alfabetizando e acolhendo. O protocolo assinado em 1998 com o Ministério da Educação, para combater o analfabetismo, tornou-se exemplo do papel activo da Igreja: transformar capelas em salas de aulas e fiéis em professores voluntários. Em muitas regiões, a Igreja foi o primeiro rosto do Estado — um farol de esperança onde a presença governamental ainda não havia chegado.
Reconhecimento e Memória Viva
Cinquenta anos depois da independência, o reconhecimento público do Estado aos líderes metodistas reafirma essa trajetória. As condecorações presidenciais atribuídas aos bispos Emílio Júlio Miguel de Carvalho, Gaspar João Domingos e José Quipungo, e de tantos obreiros e leigos metodistas, representam mais do que homenagens — são gestos de reconciliação histórica. “É uma bênção que ao celebrarmos o Jubileu da nossa Independência, o trabalho da Igreja seja reconhecido. As nossas igrejas foram destruídas, pastores mortos e presos mas hoje vemos o fruto da perseverança e da fé”, afirmou o bispo Gaspar João Domingos. Para o reverendo Adriano Kilende, presidente do Conselho de Programas da Conferência Anual do Oeste de Angola, o momento é simbólico: “Ver bispos, pastores e membros metodistas reconhecidos nesse marco histórico é motivo de orgulho e celebração”.
Entre Desafios e Esperança
Num mundo cada vez mais secular e desigual, a IMUA enfrenta novos desafios: a juventude distanciada da fé, a crise de valores e a necessidade de renovar a sua missão social mas a sua força continua enraizada: a fé que educa, emancipa e transforma. Em Angola, onde tantas feridas ainda pedem cura, essa herança é mais necessária do que nunca.
A Fé como Escola de Cidadania
Do missionário Taylor ao bispo Emílio de Carvalho, das salas improvisadas de alfabetização às condecorações oficiais, a IMUA construiu um legado que transcende o religioso. Hoje, ao celebrar o cinquentenário da independência, o país reencontra na história metodista um espelho da sua própria jornada — de dependência à autonomia, da dor à reconstrução, da fé à cidadania. E talvez essa seja a maior lição da Igreja Metodista Unida em Angola: quando a fé se faz ação, nasce uma nação.